Na eucaristia do segundo dia dos trabalhos, o Bispo Emérito de Nacala fez do “Hino à Caridade” de São Paulo uma bússola para a vida religiosa moçambicana, alertando que nenhum carisma, por mais espectacular que seja, tem valor sem amor.
Maputo continua, esta semana, a ser o centro da reflexão da vida religiosa consagrada em Moçambique. No segundo dia da XXXVII Assembleia Geral da Conferência dos Institutos Religiosos de Moçambique (CIRMO), a celebração eucarística ficou marcada por uma homilia densa e exigente de Dom Germano Grachane, Bispo Emérito de Nacala, que escolheu um dos textos mais conhecidos — e mais desafiantes — do Novo Testamento para interpelar os religiosos e religiosas presentes: o “Hino à Caridade“, de São Paulo, no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios.
Mais do que uma simples explicação bíblica, a intervenção do Bispo funcionou como um verdadeiro apelo à conversão interior, num momento e num dia em que a CIRMO propos a discussão sobre os rumos da vida consagrada perante os desafios sociais e eclesiais que o país atravessa.
A caridade como “nó” que une toda a Carta
Dom Germano começou por situar o Hino à Caridade no coração da Primeira Carta aos Coríntios, explicando que é este texto que dá unidade a toda a epístola. Segundo o bispo, São Paulo não inventou esta exaltação a partir do nada: retomou e adaptou uma tradição já presente no Livro da Sabedoria (7,22), que na cultura judaica exaltava a Sabedoria — e transportou essa mesma lógica para colocar a Caridade cristã no lugar central.
É essa Caridade, sublinhou o prelado, que resolve as tensões concretas com que a comunidade de Corinto — e, por extensão, qualquer comunidade cristã hoje — se debatia:
- As questões de estado de vida — dando sentido pleno ao matrimónio, à virgindade e ao celibato;
- O múnus social — purificando a partilha com os pobres, para que não se reduza a simples assistencialismo;
- O exercício do poder — orientando o uso correcto dos carismas dentro da comunidade.
A conclusão do bispo foi directa: a caridade vale mais do que qualquer argumento teológico ou definição erudita sobre a vida consagrada.
O vazio dos gestos heroicos sem amor
Um dos momentos mais fortes da homilia foi a recordação do contraste que São Paulo estabelece entre os carismas que fascinavam os cristãos de Corinto e a essência da caridade. Dom Germano enumerou esses dons tão admirados na época: o falar em várias línguas, o dom da profecia, a assistência social levada ao extremo e até o sacrifício da própria vida entregue ao fogo — um gesto que, na cultura da altura, era visto como o auge da coragem e da dedicação pessoal.
Sem caridade, mesmo o sacrifício mais extremo ou o dom mais espectacular “não são nada” — foi a advertência que o bispo, ecoando as palavras do Apóstolo, deixou bem vincada aos religiosos presentes.
Para Dom Germano, a caridade não pode ser reduzida a uma técnica de eficácia pastoral. É antes uma “veia” de inspiração que vem de Deus e que transfigura qualquer acto, por mais simples que pareça.
Uma palavra usada de forma absoluta
Com o rigor de quem também é estudioso do texto bíblico, Dom Germano chamou a atenção para um pormenor gramatical revelador: São Paulo usa a palavra “caridade” dez vezes ao longo do texto, sempre de forma absoluta — sem artigos, sem complementos, sem nada que a limite ou explique. Para o bispo, este detalhe não é acidental: mostra que Paulo eleva a caridade à categoria de valor absoluto e pessoal, que nenhuma circunstância humana consegue condicionar.
O retrato de uma virtude que age na vida real
A partir dos versículos 4 a 8 do capítulo 13, Dom Germano traçou aquilo que descreveu como um verdadeiro retrato da caridade — não como ideia abstracta, mas como comportamento concreto, quase palpável no quotidiano de qualquer comunidade.
| O que a Caridade É / Faz | O que a Caridade Não É / Não Faz |
|---|---|
| É paciente — suporta ofensas e domina o rancor | Não é invejosa |
| É benévola e desinteressada | Não é vaidosa nem se irrita |
| Cuida do próximo e dos seus interesses | Não faz nada de inconveniente |
| Triunfa sempre sobre o mal | Não guarda rancor nem se zanga |
| É incansável quando posta à prova | Não desanima diante da dificuldade |
O bispo aproveitou ainda para sublinhar um ponto de reflexão teológica importante: esta benevolência universal, que não exclui ninguém, contrasta com a postura mais reservada e fechada que caracterizava o judaísmo oficial da época face a outras religiões. A caridade cristã, por natureza, rompe fronteiras e barreiras sectárias — uma mensagem que, segundo Dom Germano, mantém toda a actualidade numa Moçambique marcada pela diversidade religiosa e social.
A única virtude que não passa
Na parte final da reflexão bíblica, Dom Germano abordou a relação entre as três virtudes teologais — fé, esperança e caridade. Recordou que, na condição humana actual, vemos a realidade de forma parcial, “como através de um espelho”. Mas essa ordem muda na plenitude da vida junto de Deus: a fé e a esperança pertencem ao “tempo da prova”, ou seja, à nossa existência provisória, enquanto a caridade é a única que permanece para sempre.
Numa expressão de forte densidade teológica, o bispo definiu a caridade como o “organismo de filhos de Deus” — o dinamismo interior que nos é dado para nunca deixarmos de nos entregar livremente a Deus, sendo esta a única realidade que subsistirá na plenitude da comunhão dos santos.
Um alerta sobre os “sinais dos tempos”
Dom Germano encerrou a homilia com um apelo de fundo histórico-espiritual, recordando que João Baptista e Jesus foram os dois últimos enviados antes da grande catástrofe que marcou o povo de Israel: a destruição de Jerusalém e do seu Templo pelo Imperador Tito. Para o prelado, este episódio da história bíblica funciona como espelho para a realidade actual em Moçambique. O apelo à conversão, disse, não é um exercício meramente teórico, mas uma necessidade urgente diante das transformações sociais que o país vive. Para a liderança religiosa reunida na Assembleia da CIRMO, compreender os “sinais dos tempos” significa agir com a consciência de que as estruturas humanas podem cair — mas a missão da caridade permanece eterna.
Um apelo à liderança religiosa moçambicana
Na conclusão da sua homilia, Dom Germano deixou aos participantes da XXXVII Assembleia Geral da CIRMO um convite claro à radicalidade evangélica: a entrega total e livre a Deus, vivida através de Cristo e no seio da Igreja, é o fim último de toda a vida consagrada.
O bispo insistiu para que os religiosos e religiosas presentes não se percam na gestão de carismas ou de instituições, mas se centrem naquilo que é essencial: a caridade que, como recorda São Paulo, “não busca os seus próprios interesses”.
Que a caridade seja assumida como a “via superior” para a Igreja em Moçambique — o único caminho capaz de garantir a união e a relevância da fé num mundo em constante mutação. Porque, no fim, quando tudo o resto passar, só o amor permanecerá como prova viva da nossa filiação divina.





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