Contemplando o ícone da Santíssima Trindade, a religiosa convidou a assembleia a assumir o exemplo da comunidade trinitária, marcada pela total doação, total recepção e total abertura — uma comunidade “sem confusão, sem separação”, ao mesmo tempo focada e descentralizada. “Veneramos um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade”, sublinhou.

O impacto das heresias na vida comunitária

Debruçando-se sobre heresias do passado, Ir. Pilar identificou expressões que, ainda hoje, ferem a vida comunitária religiosa: “com esta pessoa eu não posso viver”, “aqui quem manda sou eu”, “ou fazes o que digo ou vais-te embora”, “este vai saber quem eu sou”, “ninguém se interessa por mim”. A oradora alertou para os perigos do vitimismo, da concorrência, do autoritarismo, das humilhações, dos abusos de poder e dos exclusivismos, convidando todos a “viver em comunhão que se concretiza numa Igreja sinodal, sendo guardiães não de interesses particulares, mas discípulos de Cristo”.

Ao concluir a sua intervenção, Ir. Pilar deixou à assembleia um conjunto de interrogações: como se vive a vida consagrada numa Igreja sinodal? Como são, hoje, as relações entre os membros de uma comunidade religiosa numa Igreja-comunhão? Como podemos ser, em Moçambique, memória viva da comunhão trinitária? O momento de partilha e interação com os superiores trouxe à tona questões concretas da vida comunitária em contexto moçambicano:

  • Como integrar a concepção africana/moçambicana do exercício da autoridade — muitas vezes marcada pelo autoritarismo — na vida comunitária?
  • Como conciliar a relação entre quem trabalha como assalariado e quem gere os bens da comunidade?
  • Muitos jovens chegam à vida religiosa provenientes de ambientes familiares já feridos, o que se traduz, na comunidade, em atitudes de defesa ou de autoritarismo, afastando-se do modelo trinitário. Reconheceu-se a necessidade de um percurso terapêutico de cura.
  • Como libertar-se dos rótulos que os outros nos colocam dentro da comunidade?

Respondendo às questões, Ir. Pilar recordou que é preciso entrar num caminho de cura das próprias feridas, sabendo que estas nos acompanharão para o resto da vida. Sublinhou ainda que a sinodalidade não é uma democracia, mas “uma conversação do Espírito“: um processo lento e longo de escuta recíproca, que não visa eliminar a ideia dos outros, mas construir comunhão através do diálogo.

De recordar que a palestra da Ir. Pilar foi antecedida pela celebração da Missa presidida pelo Núncio Apostólico em Moçambique, Dom Luis Munoz Cardaba, o qual desafiou os religiosos a empreender um caminho de renovação eclesial em Moçambique em tempos desafiadores.

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