O Pe. Fonseca partiu da analise da perícope do Êxodo 3,7-10: Deus viu e ouviu o clamor do povo, por isso desceu para livrá-lo da mão dos egípcios. A mistagogia de Deus nos mostra que não se trata de simplesmente escutar o povo clamando e Deus fechando seus ouvidos como um surdo. Ele escuta e abre os olhos para ver o que está a acontecer, ou seja, Deus se faz presente, é compassivo e toma uma decisão. O povo moçambicano, como vários povos do TerceiroMundo, clama todos os dias por um socorro, uma libertação. As feridas provocadas por vários desafios sufocam a alegria natural do povo que acima de tudo busca um Deus libertador

Um contexto eclesial em mudança

A reflexão seguiu para uma analise do crescimento das igrejas neopentecostais em Moçambique, apontado como sinal de que a Igreja Católica precisa de repensar a sua forma de evangelizar. “Criticamos quem está, mas não vamos ao encontro de quem não veio”, resumiu-se no debate, defendendo-se uma mudança de paradigma, de metodologia e de abordagem pastoral.

Pobreza, violência e impunidade

A pobreza, a corrupção, a violência, a criminalidade e o tráfico de droga foram identificados como feridas abertas da sociedade moçambicana, com epicentro em Cabo Delgado. A guerra, disse-se, “nos fez aprender muita coisa” — mas conviver com esta realidade vai exigir tempo, e a própria evangelização e convivência da Igreja com o fenómeno foram postas em causa.

Quanto à justiça, notou-se um paradoxo: multiplicam-se os tribunais, mas a impunidade continua a ser “o prato do dia”. Perante isto, os participantes foram chamados a redescobrir a graça e a assumir a exortação de Jesus: “Eu vos envio como cordeiros no meio de lobos.” Defendeu-se ainda o trabalho de networking como caminho concreto, e uma Igreja que se põe ao lado dos direitos humanos e das periferias, diante de um povo que continua a viver na miséria e na opressão.

“O povo é empobrecido”

A frase tornou-se o centro da crónica do dia: Moçambique é uma terra rica em recursos humanos e naturais, mas o seu povo é empobrecido — nomeadamente pela acção . O desafio lançado à Vida Consagrada foi claro: ouvir o clamor deste povo e transformar essa escuta em acção.

Trabalho em rede como resposta

Na interacção com a audiência, sublinhou-se que a missão da Igreja acontece num contexto de forte intimidação, num passado recente marcado por tentativas de silenciar vozes críticas. Como resposta, o Pe. Fonseca Kwiriwi defendeu o “trabalho em rede” — em articulação com advogados, juristas e outras forças vivas da sociedade — e propôs a criação de uma comissão dedicada a insistir nesta via como forma de enfrentar os problemas que afligem o país.

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