Irmã Luciana Duarte, MJC, propôs às religiosas e religiosos um caminho de permanência fiel diante das mudanças da vida consagrada, alertando para o individualismo, o patriarcalismo e as rivalidades que ainda marcam a realidade moçambicana
No periodo da tarde do dia 17 setembro, os superiores continuaram os seus trabalhos de estudo escutando alguns peritos sobre o tema da fidelidade, discernimento e conversão. Ir Luciana convidou os religiosos em Moçambique a olhar de frente para os seus desafios internos e a redescobrir o sentido mais profundo da fidelidade. Foi este o convite feito pela Irmã Luciana Duarte, MJC, na palestra intitulada “Fidelidade, Missão e renovação da Vida Consagrada em tempos de mudança”, orientada em torno de três palavras-chave: Permanecer, Discernir e Converter.
Permanecer: guardar o fogo, não o passado
Segundo a Irmã Luciana, viver num tempo em que “tudo muda o tempo todo” exige compreender que a fidelidade não consiste em conservar o passado, mas em guardar o foco. “Ser fiel é ser guardião do fogo novo na terra nova“, afirmou, convidando à reflexão sobre o motivo pelo qual tantas vocações e comunidades se desgastam precisamente quando mais se entregam à missão.
A religiosa sublinhou que nem toda a crise é sinal de infidelidade, recorrendo ao exemplo do profeta Elias que, no momento da crise, comeu, bebeu, dormiu e silenciou para se refazer. Um gesto que ensina a importância do descanso e da reconstrução interior antes de qualquer resposta apressada.
A partir da passagem de João 4, 6 — Jesus junto ao poço, cansado e sem controlo sobre o tempo ou o modo como o encontro com a samaritana aconteceria — a palestrante destacou que a fidelidade verdadeira não é repetição de gestos, mas a capacidade de permanecer até que algo mude, respeitando o dom de Deus que não se impõe.


Discernir e converter: o luto necessário
No segundo momento, a Irmã Luciana questionou a assembleia sobre o que precisa morrer nas estruturas, nas certezas e nos hábitos para que a missão volte a ter vida. Converter-se, explicou, significa também fazer o luto de “pecados de estimação” que a vida consagrada resiste em abandonar. “É preciso deixar morrer para reparar a terra cansada”, disse, apelando ainda à necessidade de “descer ao chão do povo”.
Desafios da vida consagrada em Moçambique
A palestrante não deixou de apontar problemas concretos que atravessam a vida consagrada no país: o individualismo, o patriarcalismo e as rivalidades continuam a ser, segundo ela, os defeitos que mais marcam esta realidade. Para a religiosa, é urgente repensar estruturas descompassadas, evitando dar “respostas velhas a problemas novos”.
Neste contexto, a sinodalidade foi apresentada como fonte de novidade, sendo a presença cada vez maior de mulheres e leigos um “facto novo” que interpela e renova a vida da Igreja e da vida consagrada em Moçambique.

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