Institutos religiosos identificam desafios comuns na pastoral vocacional, na formação inicial e permanente, na missão e no cuidado da saúde mental e da salvaguarda, e assumem compromissos concretos para reforçar a comunhão entre as congregações
Representantes de institutos religiosos masculinos e femininos reuniram-se em Maputo, no seu último dia de trabalho (18 setembro 2026) no âmbito da XXXVII Assembleia Geral da CIRMO, para um momento de partilha e discernimento sobre os grandes desafios que hoje se colocam à vida consagrada. Divididos em cinco grupos de trabalho, os participantes debruçaram-se sobre temas como vocação e formação inicial, formação permanente, missão e presença na vida consagrada, e o cuidado da pessoa, da saúde mental e da salvaguarda.
Comunhão vivida, mas ainda marcada por distâncias
O primeiro grupo, dedicado à vocação e formação inicial, começou por reconhecer sinais concretos de comunhão entre os institutos, visíveis nos encontros, nas formações, nas convivências e, sobretudo, na solidariedade demonstrada nos momentos de dor, “com gestos concretos e não somente mensagens de condolências”. Os participantes destacaram ainda a alegria vivida na partilha das diferenças e a abertura constante às ofertas de ajuda mútua.
Contudo, o grupo não escondeu as dificuldades: institutos com missões em zonas mais distantes ou de difícil acesso sentem a comunhão de forma menos efetiva, havendo “uma pertença, mas não sentido de família”. A distância geográfica, os recursos limitados, as diferenças culturais e linguísticas, e a falta de contacto e visitas foram apontadas como fatores que geram uma sensação de abandono.
“Precisamos suscitar a vivência da unidade, percebermos que somos um só corpo.”
Para superar estes obstáculos, os religiosos defenderam a necessidade de agir como um só corpo, sobretudo perante temas complexos e pastorais. O grupo sublinhou também a importância de dar a conhecer a essência dos diversos carismas, consolidando trabalhos inter-congregacionais já existentes — como o ISMMA — e promovendo comunidades itinerantes.
Entre os principais desafios identificados estão a formação académica avançada de religiosos e religiosas (mestrado e doutoramento) e a melhoria da comunicação entre institutos. Como prioridades, ficou o compromisso de reforçar a comunhão, a partilha dos dons carismáticos e a capacitação dos consagrados.




Um Diretório para a Pastoral Vocacional
Ainda sobre vocação e formação inicial, um segundo grupo de reflexão manifestou gratidão pelas vocações que continuam a chegar aos institutos em Moçambique, ao mesmo tempo que identificou a necessidade urgente de um Diretório de Pastoral Vocacional, que oriente o discernimento tendo em conta a cultura, a saúde mental dos candidatos, as questões académicas e familiares, bem como critérios claros para a transição de candidatos entre congregações, no respeito pelas estruturas de animação vocacional já existentes.
Os participantes propuseram uma maior aproximação entre as famílias dos jovens vocacionados e as congregações, através de um diálogo que permita às famílias conhecerem melhor a vida religiosa. Quanto à formação inicial, foi realçada a importância de integrar os valores culturais e familiares, promover uma formação gradual — humana, afetivo-sexual e catequética — aprofundar a teologia da vida consagrada e despertar nos formandos o amor pela Igreja local e universal.
Foi ainda reafirmado o compromisso de reforçar a comunicação entre congregações, evitando acolher candidatos já acompanhados por outros institutos sem diálogo prévio.
Formação permanente: cuidar do ser, não do ter
O terceiro grupo, centrado na formação permanente, fidelidade e renovação, considerou que a formação atualmente oferecida pela CIRMO responde às necessidades do tempo presente. Para ajudar os consagrados a permanecerem fiéis à sua vocação sem se fecharem às mudanças da sociedade, os participantes defenderam a criação de ambientes seguros e alegres, que favoreçam a partilha, a escuta e o acolhimento incondicional.
“Valorização do ser e não do ter, e maior valorização do encontro com Deus.”
As dimensões humana, espiritual e comunitária foram identificadas como as que mais precisam de atenção, propondo-se a organização de temas formativos sobre valores culturais, um programa formativo mais abrangente e dois retiros anuais. Como desafios prioritários, o grupo apontou o regresso às origens da identidade carismática, um maior conhecimento da cultura local — com os seus valores e contravalores — e um programa integral de formação humana, espiritual e comunitária, assumindo o compromisso de organizar exercícios espirituais semestrais e de trabalhar temas ligados ao autocuidado.
Missão marcada por vulnerabilidade social e desafios tecnológicos
No que diz respeito à missão e presença na vida consagrada, o quarto grupo identificou como principais desafios a necessidade de uma formação integral na catequese, na pastoral e nas comunidades, face a uma acentuada vulnerabilidade social, bem como o mau uso da tecnologia e das redes sociais e a dificuldade em superar o isolamento e o individualismo.
Como resposta, os participantes propuseram uma catequese e evangelização íntegras, de caráter prático, humano e cristão, a integração do carisma de cada congregação no plano pastoral e o reforço do diálogo entre a CIRMO e os Bispos. O grupo assumiu ainda o compromisso de criar uma ouvidoria e mecanismos de fiscalização.
Saúde mental e salvaguarda: um centro médico para a CIRMO
O quinto e último grupo debruçou-se sobre o cuidado da pessoa, a saúde mental e a salvaguarda, identificando como desafios prioritários as fragilidades na convivência comunitária, a falta de autocuidado físico, espiritual e mental, e a ausência de coragem e de instrumentos claros que facilitem a denúncia de abusos.
Entre as propostas concretas, destacam-se a criação de ambientes fraternos de oração, lazer e partilha de experiências — tanto ao nível comunitário como inter-congregacional —, a constituição de uma comissão de saúde e a criação de um gabinete de acompanhamento, escuta e discernimento. Como compromisso mais ambicioso, o grupo propôs a criação de um centro médico e de um seguro de saúde próprios da CIRMO.
Um caminho comum de renovação
As conclusões dos cinco grupos convergem num apelo à maior comunhão entre os institutos religiosos, ao cuidado integral da pessoa consagrada e a uma formação — inicial e permanente — cada vez mais enraizada na identidade carismática e atenta aos sinais dos tempos. Os compromissos assumidos apontam para os próximos passos da vida consagrada em Moçambique: mais unidade, mais formação e mais cuidado mútuo, ao serviço da missão da Igreja.











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