A formação abriu na manhã de 7 de julho com a Santa Missa presidida por Dom Tonito Xavier Muananoua, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maputo. Na homilia, Dom Tonito recordou que o encontro manifesta a comunhão da vida consagrada em Moçambique e fortalece o compromisso de escutar o Espírito, discernir em conjunto e servir com fidelidade o povo de Deus. Apoiando-se no profeta Oseias, alertou para o risco de uma autoridade desligada da vontade de Deus e reduzida a mero poder humano, e sublinhou que a liderança de Jesus se revela na compaixão e no serviço humilde. Citando o teólogo carmelita Arnaldo Pigna, apontou quatro fatores na origem da crise atual do serviço de autoridade: a crise da própria autoridade, a compreensão individualista da obediência, o enfraquecimento da vida comunitária e o enfraquecimento da missão e do testemunho profético.

Antes da bênção final, o Pe. José Joaquim Luís Pedro, presidente nacional da CIRMO, agradeceu a presença e a disponibilidade pastoral de Dom Tonito, recordando que o encontro não pretende resolver os problemas das comunidades, mas acompanhar e animar os superiores na missão que lhes foi confiada.

Na palavra de boas-vindas, o Pe. José Joaquim situou os participantes diante da crise de autoridade vivida na sociedade atual e reafirmou o objetivo do encontro: formar superiores capazes de uma liderança espiritual, conscientes da sua missão. Agradeceu ainda à Conferência Episcopal dos Estados Unidos o apoio que tornou possível a formação, e recordou que este momento é também preparação espiritual e institucional para a Assembleia Geral da CIRMO, marcada para setembro.

O primeiro dia foi dedicado à dimensão espiritual, com três palestras conduzidas pelo Pe. José Joaquim, inspiradas no documento O Serviço da Autoridade e a Obediência, da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica:

  • “Consagração: o fogo que nos precede” — partindo da afirmação de que “o superior que esquece a própria consagração perde tudo”, o palestrante sublinhou que a autoridade nasce da consagração e não das funções exercidas, e que uma autoridade desligada dessa raiz se torna técnica, dura e centrada no controlo.
  • “A busca: o coração inquieto que conduz a comunidade” — a reflexão partiu da pergunta “a quem buscamos?”, recordando que é a busca de Deus, e não a função, que inspira e transforma a comunidade, e que a verdadeira busca ilumina, purifica e salva.
  • “A obediência de Jesus como fundamento da autoridade”, uma leitura do Novo Testamento para superiores, que apresentou a obediência radical de Cristo ao Pai como modelo de toda autoridade na vida consagrada.

Seguiram-se partilhas em grupo, estruturadas em três momentos — partilha pessoal, avaliação crítica e aplicação ao contexto moçambicano —, que permitiram confrontar os conteúdos com a realidade concreta das comunidades. O dia terminou com oração final presidida pelo Pe. José Joaquim.


O segundo dia foi marcado pela dimensão comunitária, sob o tema “Autoridade e Obediência na Vida Fraterna”, conduzido pela Ir. Pilar de la Puerta, FI. O dia abriu com a Santa Missa presidida pelo Padre Frenardes Umberto, dos Padres Marianistas, cuja homilia, inspirada no profeta Oseias e no Evangelho de Mateus, destacou que o verdadeiro líder mantém o olhar fixo em Deus e não em ídolos, poder ou segurança humana, e que Jesus escolheu pessoas simples e frágeis para colaborar na sua missão — sinal de que Deus procura corações disponíveis, não pessoas perfeitas.

As três palestras da Ir. Pilar, centradas na dignidade da pessoa humana e ancoradas no documento O Serviço da Autoridade e a Obediência (CIVCSVA), no Sínodo sobre a Sinodalidade e na Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV sobre a dignidade humana na era da inteligência artificial, desenvolveram-se em três eixos:

  • “A Autoridade como Serviço da Vontade de Deus: Guia e Sinal de Unidade” — a partir de Mt 23,8, a oradora recordou que o voto de obediência não anula a liberdade, mas coloca a vontade nas mãos de Deus, e que o verdadeiro superior é servidor da vontade de Deus e animador da comunhão, não chefe ou administrador.
  • “Equilíbrio entre Sujeito e Comunidade: Desafios Atuais da Vida Fraterna” — foram identificados desafios espirituais, psicológicos e culturais que afetam a convivência fraterna, com destaque para uma reflexão sobre o abuso de poder e a instrumentalização da obediência, contrárias ao sentido evangélico da autoridade.
  • “Construir Comunidades Fraternas: Corresponsabilidade, Discernimento e Comunhão” — retomando a imagem bíblica da reconstrução de Jerusalém por Neemias, em contraste com a divisão de Babel, a palestra apresentou o método da Conversação no Espírito como instrumento de discernimento comunitário recomendado pelo Sínodo sobre a Sinodalidade.

Após as palestras, os participantes trabalharam em três grupos, aprofundando temas como o individualismo, o abuso de poder, a falta de liberdade interior e as diferenças culturais, reconhecendo a necessidade de processos contínuos de formação, diálogo e discernimento para que as comunidades religiosas se tornem espaços de acolhimento e crescimento mútuo.


O terceiro e último dia centrou-se na dimensão missionária, sob o tema “Autoridade e Obediência em Saída”. A Santa Missa de encerramento teve um tom de gratidão, com o apelo a que a missão não se limite ao anúncio de palavras, mas se traduza em gestos concretos de amor, misericórdia e serviço junto dos irmãos.

A Psicóloga Ir. Felicidade conduziu quatro momentos de reflexão:

  1. “Obediência e Missão: Liberdade para Servir e Evangelizar” — a obediência foi apresentada não como limitação da liberdade, mas como resposta de amor ao chamado de Deus, e a autoridade como missão de fidelidade ao carisma, e não domínio sobre os outros.
  2. “Autoridade como Guia da Missão: Discernimento, Envio e Colaboração com Leigos” — a autoridade foi descrita como serviço confiado por Deus, exercido pelo discernimento, pela escuta e pelo acompanhamento fraterno, incluindo a promoção da colaboração com os leigos na missão.
  3. Novos desafios missionários — a oradora abordou a obediência em contextos de tensão e desânimo, à luz do exemplo de São Bento e São Francisco, e refletiu sobre a objeção de consciência, recordando que a obediência não é exigida quando uma ordem contraria claramente a lei de Deus ou conduz a um mal grave e certo.
  4. Aplicações para os superiores de Moçambique — entre as propostas concretas, destacaram-se a promoção de uma liderança servidora e participativa, o fortalecimento da formação permanente, a valorização da escuta ativa, do discernimento comunitário e da revisão de vida, e o cultivo de uma espiritualidade de serviço e de reconciliação recíproca.

Nos grupos de trabalho finais, os participantes identificaram como principais desafios do exercício da autoridade a dificuldade em promover a obediência e o diálogo, a gestão de conflitos comunitários e a escassez de vocações e recursos. Reconheceram ainda que uma autoridade vivida como serviço pode impulsionar, no contexto moçambicano, uma missão transformadora, marcada pela comunhão, pela escuta e pela proximidade com as populações.

Como propostas práticas, os grupos sugeriram: fortalecer a formação permanente dos superiores e das comunidades; promover uma liderança participativa e corresponsável; intensificar o testemunho de proximidade junto das comunidades mais vulneráveis; e reforçar a colaboração entre congregações, leigos e demais agentes pastorais.


A Formação Permanente encerrou com o apelo a que a autoridade seja, em Moçambique, sempre expressão de serviço, comunhão e amor — um compromisso que os Superiores Maiores da CIRMO levam agora de volta às suas comunidades, rumo à Assembleia Geral prevista para setembro.

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