Saúdo com alegria o Pe. José Joaquim Luís Pedro, Presidente Nacional da CIRMO, os Superiores Maiores de Inhambane e Gaza, e todos os religiosos e religiosas aqui presentes. A vossa presença manifesta a comunhão da vida consagrada em Moçambique e fortalece o nosso compromisso de escutar o Espírito, discernir juntos e servir com fidelidade o povo de Deus.”
Reunimo-nos nestes dias de formação permanente sob o tema ‘O Serviço da Autoridade e Obediência’, conscientes de que o Senhor nos convoca a renovar o dom da consagração, a purificar o coração na escuta da sua vontade e a redescobrir, com alegria e fidelidade, a beleza da vida fraterna e missionária como testemunho luminoso no mundo. Que este encontro seja para todos nós tempo de graça, de discernimento e de partilha, para que a autoridade e a obediência se tornem serviço humilde e testemunho luminoso no meio do povo de Deus.
As leituras proclamadas iluminam o nosso caminho e revelam o coração da nossa vocação. O profeta Oseias denuncia a tentação de construir reinos e projetos sem referência a Deus: ‘Eles constituíram reis sem minha vontade’ (Os 8,4). É o perigo de uma autoridade desligada da vontade divina, reduzida a mero poder humano, incapaz de gerar comunhão.
Em contraste, o Evangelho mostra-nos Jesus que, ao ver as multidões cansadas e abatidas, comove se de compaixão e envia os discípulos como trabalhadores da sua vinha (Mt 9,36-38). Aqui, a autoridade manifesta-se como serviço humilde e guia da missão, e a obediência revela-se como disponibilidade generosa para colaborar na obra de Deus. Assim, aprendemos que a verdadeira autoridade nasce da compaixão e do discernimento, e a obediência é caminho de liberdade e entrega para que o Reino se torne visível no meio do povo.”
Arnaldo Pigna um teólogo carmelita descalço (OCD) especialista em vida consagrada, espiritualidade e teologia dos votos, na sua obra “La Vita Consacrata. Identità e missione (2002) recorda-nos que a Instrução “ O Serviço da autoridade e obediência” emanada pela CIVRSVA nasceu de seis fatores decisivos. Hoje destaco quatro que dialogam diretamente com as nossas leituras e com o programa desta formação:
- A crise da autoridade – Muitos superiores receiam exercer o seu papel, e comunidades ficam sem rumo. Oseias já denunciava esta fragilidade: reis sem Deus, governos reduzidos à administração. A nossa formação quer recuperar o sentido evangélico da autoridade: não domínio, mas discernimento e comunhão.
- A compreensão individualista da obediência – A cultura moderna valoriza a autonomia absoluta. Mas Jesus ensina que a verdadeira liberdade é obedecer ao Pai, como Filho obediente. A obediência não é obstáculo, mas caminho de plenitude.
- O enfraquecimento da vida comunitária – Projetos pessoais acima do comunitário, conflitos mal resolvidos, perda do espírito de pertença. O Evangelho mostra-nos que a missão é sempre comunitária: “Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores”. Não há missão sem comunhão.
- Missão e testemunho profético– A missão e o testemunho profético da vida consagrada exigem que autoridade e obediência sejam vividas não apenas dentro da comunidade, mas como serviço ao povo de Deus. Quando fragilizadas, enfraquecem o sinal profético da Igreja; quando purificadas pelo Evangelho, tornam-se fonte de esperança, guia de comunhão e impulso para a missão.
“Queridos irmãos, estes dias de formação são dom precioso para escutarmos juntos o Espírito, discernirmos em comunhão e partilharmos a vida consagrada. O programa que nos guia reflete esta tríplice dimensão: primeiro, a espiritual, que nos convida a buscar o rosto de Deus e aprender de Cristo, o Filho obediente; depois, a comunitária, que nos recorda que a autoridade é serviço da unidade e a obediência corresponsabilidade fraterna; e, por fim, a missionária, que nos impele a viver a autoridade e a obediência em saída, como liberdade para servir e evangelizar, em solidariedade com os pobres. Assim, cada etapa destes dias torna-se caminho de renovação, comunhão e envio, para que sejamos sinais vivos do Reino no meio do povo.”
Assim, a obediência, longe de ser submissão cega, torna-se verdadeira liberdade para amar e servir, enquanto a autoridade, purificada pelo Evangelho, se revela como guia humilde que conduz à comunhão e à missão. Que esta formação nos ajude a vencer a crise da autoridade, a superar o individualismo e a curar o enfraquecimento comunitário, para que, reconciliados e unidos, sejamos sinais vivos de Cristo obediente e servidor, presença de esperança no meio do povo de Deus.”
Concluo com uma súplica: “Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores”. Que o Espírito Santo nos faça trabalhadores da vinha do Senhor, unidos na escuta, no discernimento e na partilha, para que a Igreja em Moçambique seja sempre sinal de esperança e comunhão.
Amém.

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